segunda-feira, 20 de julho de 2015

As imagens do filósofo na arte de Rembrandt (por Rogerio Rocha)

Por Rogerio Henrique Castro Rocha

"Rembrandt Harmenszoon van Rijn - Self-Portrait - Google Art Project" 


Hoje trago para vocês algumas impressões a respeito de uma relação que sempre dá o que pensar: aquela que existe entre arte e filosofia. 

As conexões existentes entre essas duas formas de expressão da criatividade humana são responsáveis por incontáveis polêmicas, análises e teorias.

Afinal tratam-se de dois campos do conhecimento que, ao longo de suas histórias, tem dialogado constantemente, dando lugar a grandes debates.

No mais, a conexão entre filosofia e arte (no caso em apreço as artes plásticas), no plano do que elas podem nos oferecer de melhor, enquanto objetos de fruição estética e reflexão crítica, rendem momentos fabulosos.

Para tentar lhes mostrar um pouco disso, ou seja, de como funciona esse diálogo entre 'mundos', com suas lentes de aumento focadas sobre os muitos planos da existência (ora realidade, ora sonho, conceitos, símbolos), resolvi apresentar, a partir da análise de dois quadros de autoria do pintor e gravador holandês Rembrandt (1606-1669), algumas impressões acerca da relação entre arte e filosofia, sobretudo quanto à representação da imagem do filósofo em suas telas.

"O filósofo em meditação" (Rembrandt - 1632)




No quadro acima, um dos mais famosos do talentoso pintor holandês, podemos ver retratada a figura de um homem idoso, sentado ao fundo, no canto de uma sala, próximo a uma mesa e à janela da casa.

Pela janela entra furtivamente a luz do sol, que recai por sobre parte do ambiente, nos deixando ver a figura de um ancião (o filósofo), de alguns poucos elementos que compõem a cena e de uma segunda figura humana (uma senhora ou serviçal) próximo à lareira, onde alimenta o fogo sem  preocupar-se com a presença do outro personagem.

Pois bem, então vejamos: quem é o centro da representação artística de Rembrandt? O homem que ocupa seu lugar de forma reservada, em situação de destaque, banhado pela luz solar que adentra a sala. Esse é o filósofo. O filósofo em seu ser mais constante, isto é, em sua condição primordial: a condição do meditar.

A cena retrata-o em estado de profunda imersão. Imersão em seus próprios pensamentos, voltado para dentro de si, alheio ao que lhe passa ao redor naquele instante, como que a buscar em outro lugar o que ali não se encontra.

A imagem que então percebemos é a de um homem velho. A figura da experiência, da sabedoria, o retrato do pensador como um homem recluso, alheio ao que lhe é externo (o filósofo não se volta para a luz da janela, mas para o íntimo do escuro cômodo), voltado para dentro de si e envolto nas mais profundas reflexões, quase como que num pequeno transe.

Vejam, portanto, como Rembrandt magistralmente compôs a cena. Um leve efeito de mistério e intimidade obtido com a luz e a sombra (a técnica do chiaroscuro, amplamente dominada pelo mestre espanhol Caravaggio), o uso de apenas quatro cores (variando entre o branco, o preto, o marrom e um amarelo terroso).

Se voltarmos por mais um instante as nossas atenções à referida cena, poderemos verificar também a existência de uma pequena porta de madeira à esquerda do filósofo (por conseguinte, à direita dele, quando tomada a perspectiva de quem observa o quadro). E mais à direita, em espiral, uma escada, também de madeira, que leva a um aposento ou andar superior, cuja entrada não nos é dada a ver, visto que, neste ponto, a cena é de novo tomada pela escuridão.

No patamar mais elevado, simbolizado aqui pelo piso superior, cujo acesso se dá pela escada em caracol, temos o mundo das ideias, do conhecimento, do saber, ainda inóspito, não revelado, e onde só se chega após despender-se um certo esforço (do intelecto) que supera os problemas que se apresentam (ao galgar os degraus ou patamares da escada).

Há nesses dois planos, implícita, uma ideia de alto e baixo, daquilo que ascende e do que descende, do superior e do inferior.

Ademais, se prestarmos bem atenção, analisando novamente a imagem pintada por Rembrandt, temos que a luz que mais fortemente domina a cena é a que vem de fora da casa, que entra pela janela e ilumina a pessoa ensimesmada do velho sábio. Sua função acaba sendo como que a de delimitar ao observador do quadro que é nele, isto é, no homem que simboliza a sabedoria do pensamento reflexivo, que mora a luz do conhecimento. 

É ele que traz luz à cena (luz esta que supera, em muito, o brilho quase imperceptível da fogueira a ser acesa pelas mãos da serviçal, agachada no canto oposto da sala).

Logo, o admirável pintor holandês, sintetiza nesta obra a imagem, talvez, mais marcante e famosa que se fez vincular à filosofia: a da atividade do pensar. E nos acena também para a conclusão de que o pensar requer um recolhimento necessário. Recolhimento que repousa no movimento interno das ideias, que ilumina a vida com aquilo que desvela.


"O filósofo com o livro aberto" - (Rembrandt - 1648)

Com a mesma maestria, Rembrandt retorna ao tema, como que numa sequência tardia, em uma tela do ano de 1648. Esse novo quadro assinala não só o seu interesse pela figura dos homens de pensamento, como também faz uma verdadeira retomada da cena exposta na tela "O filósofo em meditação", que anteriormente analisamos. 

O detalhe agora, porém, na sutileza do seu estilo, e que nos chama atenção, é que vemos quase que a mesma cena da obra anterior, só que por um ângulo ou plano inverso. Os elementos de composição técnica do quadro anterior estão praticamente todos lá. O velho filósofo, pensativo, absorto em suas meditações, a janela pela qual se vê adentrar ao recinto a claridade da luz do sol, a mesa... até mesmo o velho livro aberto.

Entretanto (e aí está o plus dentro do cenário já familiar), desta vez o observador pode conhecer o restante da casa, saber que nela há outro aposento, uma porta, um corredor, encontrando um ambiente bem mais iluminado que o da obra que a antecedeu.

Ainda analisando o aspecto da retomada do tema, vê-se de novo a escada em espiral que leva ao andar de cima, envolto em escuridão. E o segundo plus presente nesta obra: o filósofo agora vislumbra o livro aberto, próximo à janela banhada de luz (na outra tela ele mirava o vazio dentro do aposento).

Ora, aqui não há mais, como antes, tantas sombras. A penumbra, a ambiência soturna e cavernosa da obra anterior parece ter se dissipado. A luminosidade do conhecimento inundou tudo, espraiando-se pelo espaço interno da sala, como se vê acima.

Desse modo, algo fez-se fenômeno, veio a lume, surgiu. Algo saiu de dentro dos pensamentos do velho pensador e fez-se verbo na realidade das letras e linhas do livro posto sobre a mesa. E o filósofo, na cena aqui tratada, se volta para a contemplação não só das próprias ideias, mas também do que lhe mostra a realidade.

Com estes dois quadros, portanto (na perspectiva desse diálogo que há entre arte e filosofia, entre imagem e pensamento, desse diálogo possível e necessário), Rembrandt nos ensina que ambas, arte e filosofia, são formas especiais de se olhar a mesma realidade. E ensina mais. Que juntas nos mostram uma maneira única de experimentar o mundo. As duas telas ora comentadas são, ao nosso entender, e acima de tudo, uma respeitosa homenagem de um mestre da expressão estética à filosofia enquanto máxima expressão da capacidade humana, simbolizada no seu ícone mais visível: o filósofo.